Dieta Vegetariana e Câncer

August 31, 2017

 

Sabemos, atualmente, que até 80% dos cânceres são causados por fatores que podemos controlar, como ambiente, tabagismo, dieta, atividade física, consumo de álcool, exposição a radiações, poluição e medicamentos, sendo que a nutrição é um fator determinante para risco ou proteção. Portanto, é importante considerar, junto a outros hábitos de vida saudáveis, a opção por uma dieta vegetariana. Ela é especialmente poderosa como fator de prevenção, ou seja, evita os problemas antes que eles ocorram.

Muitos estudos já demonstraram a relação entre uma dieta rica em produtos animais e a incidência de câncer, principalmente cânceres de intestino, fígado, mama e rins. Já as dietas muito ricas em gordura (com ou sem proteína animal) estão relacionadas à incidência de cânceres de intestino, mama, próstata e pâncreas. Em fevereiro de 2016, a revista médica British Journal of Cancer publicou um estudo realizado com mais de 35 mil mulheres britânicas (sendo 28% destas vegetarianas) com idades entre 35 e 69 anos. O estudo apontou que aquelas mulheres que consumiam carne vermelha em maiores quantidades tiveram risco de desenvolver câncer de mama aumentado em até 64%. O estudo aponta alguns mecanismos como hipóteses para explicar a relação entre a ingestão de carne e o favorecimento no desenvolvimento de câncer. São eles:

 

- Dietas ricas em carne, consequentemente, têm mais gordura saturada, o que favorece o aumento na produção do hormônio estrogênio pelo organismo, cujo excesso está diretamente relacionado à incidência do câncer de mama, por exemplo.

- Muitas carnes são ricas em estrogênios (independente do efeito estimulante da gordura), uma vez que estes são utilizados na criação para promover o crescimento do animal.

- A cocção da carne forma um composto chamado amina heterocíclica, que está relacionado ao desenvolvimento do câncer.

- As carnes processadas contêm compostos nitrosos que já demonstraram ter efeito promotor de câncer.

- As carnes são muito ricas em ferro, cujo excesso no organismo está igualmente relacionado ao desenvolvimento de algumas formas de câncer.

Outro estudo, publicado no final de 2006, na revista médica Archives of Internal Medicine, também, relacionou o consumo de carne vermelha a um aumento no risco de desenvolver o câncer de mama. Esse estudo envolveu mais de 90 mil mulheres, com idades entre 26 e 46 anos, que foram acompanhadas por um período de 12 anos. As mulheres que consumiam diariamente uma porção e meia de carne vermelha tiveram dobrado o seu risco de desenvolver câncer de mama quando comparadas àquelas que consumiam apenas três porções ou menos de carne vermelha por semana. Além disso, também em 2006, a revista médica American Journal of Clinical Nutrition publicou um estudo da Washington University que demonstra haver uma relação entre a ingestão da proteína animal e o aumento nas taxas de substâncias hormonais (IGF-1), que estão associadas como fator de risco para os cânceres de mama e próstata.

 

Mas as carnes, em especial a vermelha, não são os únicos produtos de origem animal que estão no banco dos réus quando o tema é o câncer. Um estudo sueco, publicado em 2005, evidenciou a relação entre o câncer de ovário e o consumo de laticínios. Para cada 13 gramas de lactose consumidas (equivalente a um copo de leite), o risco de desenvolver câncer de ovário aumentava em 13%. Investigações anteriores demonstraram que a lactose e a galactose (um produto da digestão da lactose) podem ter efeito tóxico no tecido ovariano. Em outro estudo, publicado ainda em 2006, o consumo de laticínios, também, foi relacionado a um aumento no risco do desenvolvimento de câncer testicular. Esse estudo, que foi conduzido na Alemanha e envolveu mais de mil homens, constatou que aqueles que consumiam mais de 20 porções de laticínios por mês tiveram aumentado em 37% o risco de desenvolver esse tipo de câncer. O estudo sugere como culpadas a galactose e a gordura presentes nos laticínios. A relação entre o consumo de laticínios e o câncer de próstata já foi estabelecida em estudos anteriores.

Além de ter potencialmente reduzida a quantidade de substâncias que favorecem o desenvolvimento do câncer, uma dieta rica em alimentos vegetais, também, possui uma quantidade maior de substâncias que o previnem. Quando falamos em uma dieta rica em alimentos vegetais, entenda-se uma dieta vegetariana, que, por razões óbvias, permite incluir uma quantidade maior de alimentos vegetais se comparada a uma dieta onívora (que inclui carnes). Uma dieta vegetariana atua, portanto, por duas vias, pois, além de reduzir o estímulo nocivo, ainda, aumenta a oferta de substâncias protetoras. Os componentes dos alimentos vegetais podem prevenir o câncer de diferentes maneiras, como, por exemplo, eliminando os radicais livres e melhorando o sistema imunológico, e são capazes de reduzir a conversão das substâncias cancerígenas à sua forma ativa.

Os fitoquímicos presentes em alimentos vegetais exercem um papel importante na prevenção de algumas formas de câncer, especialmente, no de mama. A genisteína, encontrada na soja e nos seus derivados, é um exemplo dessas substâncias de efeito protetor. Já contra o câncer de próstata encontramos um fator de proteção no licopeno, presente em frutas vermelhas como o tomate, a melancia e a goiaba vermelha. Outras substâncias que dão coloração às frutas e vegetais, chamadas de flavonoides (presentes em abundância no suco de uva e no açaí, por exemplo), também, protegem as células contra o câncer. Vegetais como brócolis e repolho contêm fatores que previnem o câncer ao favorecer a remoção de substâncias cancerígenas que se acumulam e concentram-se no interior da célula. Por ser rica em selênio, a castanha-do-pará fortalece o sistema imunológico e bloqueia a iniciação e promoção de tumores. E esses são apenas alguns exemplos de fatores de proteção contra o câncer encontrados nos alimentos de origem vegetal.

Os alimentos vegetais fornecem uma imensa gama de fatores de proteção que vai muito além das fibras, vitaminas e dos minerais. Os produtos animais, porém, contêm substâncias que são capazes de promover o câncer. Quanto mais rica em vegetais e mais pobre em produtos animais for a dieta, mais próximos estaremos da prevenção do câncer. Uma dieta vegana, balanceada para promover a boa nutrição e rica em variedade e cores para garantir a proteção, é a tradução de uma dieta poderosa na prevenção do câncer.

 

 

 

 

Dra. Vânia Assaly                               

CRM: 58.002

 

Endocrinologista e Nutróloga

 

Formação pela Universidade Estadual Paulista e especialização pela Universidade de São Paulo e Associação Brasileira de Nutrologia.

 

Membro da Sociedade Brasileira de Nutrigenômica

Fundadora da Sociedade Brasileira de Estudos sobre Envelhecimento

Vice-Presidente da ABRASFEV

Diretora e fundadora do Instituto de Prevenção Personalizada – São Paulo

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